Gastrofísica: comer é uma experiência sensorial completa

O estômago e o cérebro estão ligados de forma muito mais profunda do que imaginamos. Dessa ideia surgiu o conceito de gastrofísica, apresentado pelo professor de psicologia da Universidade de Oxford, no Reino Unido, Charles Spence. No livro Gastrophysics: The New Science of Eating, ele defende o propósito de que se sentir satisfeito após uma refeição tem mais a ver com a mente do que com o que está no prato. 

Afinal, comer é uma experiência sensorial completa. Tudo começa com os aromas que o prato exala, passa pela visualização das cores, chega às texturas de cada alimento e, claro, tem seu ápice na degustação dos sabores. Até mesmo a audição é ativada, com o som da mastigação. Mas a gastrofísica propõe uma “nova visão para ciência da alimentação”, para observar os modos como nosso comportamento em torno dos alimentos é afetado, não só por todos os sentidos como também por fatores externos, como o barulho do ambiente e até mesmo dos talheres. 

De acordo com Spence, para grande parte das pessoas, as refeições têm um gosto melhor quando servidas com facas e garfos pesados e caros, por exemplo. E que tal comer com as mãos? O pesquisador ainda cita estudos que sugerem que comer alimentos sem talheres melhora a sensação na boca --olha o tato se misturando ao paladar!

Ruídos podem atrapalhar a experiência sensorial de comer

O som também tem seu papel aqui. Afinal, quem nunca comeu em um lugar barulhento e sentiu que a comida não desceu bem? No livro sobre gastrofísica, Spence cita um estudo conduzido por Klemens Knoferle no qual esse pesquisador sistematicamente influenciava o que as pessoas diziam sobre uma xícara de café, simplesmente filtrando os sons feitos pela máquina. Quanto mais estridentes os ruídos, mais as pessoas diziam que o café não era tão bom. O que mostra a influencia do som na refeição. O experimento mais famoso de Spence é justamente seu trabalho sobre o “chip sônico”, vencedor do prêmio Ig Nobel por pesquisa improvável. No teste, o pesquisador descobriu que batatas fritas crocantes podem ser mais gostosas. Ele descobriu que aumentar o volume do crocante ao comer batatas fritas fazia os consumidores acreditarem que elas estavam em torno de 15% mais crocantes e frescas.

A gastrofísica inclusive é recheada de truques como esse, que podem ser aplicados por quem deseja comer menos ou simplesmente ter mais prazer ao se alimentar. No primeiro caso, as dicas vão de segurar o prato em suas mãos (sua mente entende que a refeição que você está prestes a fazer é substancialmente mais pesada, assumindo, por conta própria, que você está consumindo uma quantidade maior de alimento) a chamar a sobremesa de "doce" (em vez de saborear aquele pedaço de torta de maçã, experimente apreciar a torta “doce” de maçã). Quando a sobremesa recebe essa nomenclatura, sua mente pode sentir  como se estivesse trapaceando na dieta e acionando aquele famoso sistema de recompensa.

Já quando o intuito é realmente curtir o seu prato, as dicas são mais fáceis. Quanto mais você se envolver com sua refeição, mais satisfeito fica. Uma opção é aplicar o mindfulness – que propõe um estado de atenção plena -- na hora de se alimentar, para enriquecer a experiência sensorial. A ideia é usar o tato, a visão, o olfato, o paladar e a audição ao comer, para que você possa aproveitar todas essas sensações. Além disso, dar um nome mais bonito à receita também faz com que seu cérebro a encare como mais saborosa. Spence dá um exemplo prático: chame um pedaço de peixe de "peixe-espada da Patagônia" e pode não parecer apetitoso, mas o mesmo peixe reembalado como "robalo chileno" torna-se sua aspiração. 

Comer pode ser uma verdadeira aventura sensorial. Que tal aproveitar tudo isso em sua próxima refeição? 

Referência
Gastrophysics: The New Science of Eating – Charles Spence
https://www.penguin.co.uk/books/295/295794/gastrophysics/9780241977743.html

The Role Of Auditory Cues In Modulating The Perceived Crispness And Staleness Of Potato Chips
https://onlinelibrary.wiley.com/doi/abs/10.1111/j.1745-459x.2004.080403.x

Mindful eating – Harvard medical School, 2011
https://www.health.harvard.edu/staying-healthy/mindful-eating

Greater mindful eating practice is associated with better reversal learning -
Scientific Reports, volume 8, 2018
https://www.nature.com/articles/s41598-018-24001-1

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